RESPOSTA DO DIPOLO DO ATLÂNTICO SUL A CENÁRIOS FUTUROS COM E SEM INTERVENÇÃO CLIMÁTICA
geoengenharia; intervenção climática; injeção de aerossóis estratosféricos; branqueamento de nuvens marinhas; mudanças climáticas.
No contexto das mudanças climáticas, mesmo se as emissões de gases do efeito estufa sejam reduzidas drasticamente, a temperatura média global não diminuiria na mesma proporção devido à lenta resposta do sistema climático. Nesse cenário, projetos científicos globais buscam soluções para mitigar os impactos socioeconômicos associados aos eventos extremos e ao aquecimento global. Entre as estratégias, destaca-se a “geoengenharia”, conhecida também com intervenção climática ou modificação da radiação solar (Solar Radiation Modification - SRM), que consiste no conjunto de técnicas destinadas a reduzir a temperatura média do planeta por meio da alteração proposital do balanço radiativo da Terra. Apesar do crescente interesse científico, poucos estudos investigam os impactos do SRM sobre a América do Sul (AS) e sobre a dinâmica oceano-atmosfera que influencia o clima da região. Diante disso, o principal objetivo deste estudo é avaliar a resposta do Dipolo do Atlântico Sul (South Atlantic Dipole - SAD), um importante modo de variabilidade associado às anomalias de temperatura da superfície do mar (TSM) no Oceano Atlântico Sul (OAS), em cenários de mudanças climáticas com e sem intervenção climática e, consequentemente, identificar as possíveis alterações nos padrões de precipitação e vento em superfície na AS. Para isso, são utilizados dados observados de TSM do Extended Reconstructed Sea Surface Temperature (ERSST), de precipitação do Global Precipitation Climatology Project (GPCP), componentes do vento e pressão ao nível médio do mar da reanálise ERA5 e projeções sem SRM provenientes do Coupled Model Intercomparison Project (CMIP), considerando diferentes cenários socioeconômicos futuros (SSP2-4.5, SSP3-7.0 e SSP5-8.5). Nas projeções com SRM são utilizados dados provenientes do Geoengineering Model Intercomparison Project (GeoMIP6-G6sulfur) e do protocolo Marine Cloud Brightening (MCB-G6-1.5K-MCB), os quais utilizam as técnicas de injeção de aerossóis na estratosfera e injeção de aerossóis de sal marinho, respectivamente. O SAD é identificado sazonalmente através da análise de Funções Ortogonais Empíricas (Empirical Orthogonal Function - EOF) no clima presente (1980-2014) e no clima futuro (2035-2069). Os resultados para o clima presente indicam que os impactos do SAD são mais frequentes nos meses de verão e outono austral. Esse modo exerce grande influência no deslocamento e na intensidade da Zona de Convergência Intertropical e na chuva no sudeste da AS. Para os cenários futuros sem intervenção climática, que ainda não foram analisados, espera-se que cenários de maiores emissões intensifiquem a variabilidade da TSM no OAS, potencialmente alterando a estrutura do SAD e seus impactos sobre os padrões de precipitação e vento em superfície na AS. Por outro lado, nos cenários com intervenção climática baseados em SRM, espera-se uma redução dos impactos regionais associados ao aquecimento global, resultando em condições climáticas mais próximas às observadas no clima atual. Os resultados deste estudo contribuem para ampliar a compreensão da variabilidade climática no OAS e de suas teleconexões com o clima da AS, além de fornecer subsídios científicos para avaliar os potenciais benefícios e riscos associados ao uso de técnicas de geoengenharia no sistema climático.