EVENTOS DE SECA NA BACIA HIDROGRÁFICA DO RIO DOCE/MG-ES E A INFLUÊNCIA DE FATORES CLIMÁTICOS E ANTRÓPICOS
Análise de tendências; Índice Padronizado de Precipitação e Evapotranspiração (SPEI); Uso e ocupação da terra
A ocorrência de secas representa um desafio significativo para a segurança alimentar, hídrica e energética. A bacia do rio Doce é caracterizada por uma diversidade topográfica, geológica e climática, com variações significativas de altitude que influenciam diretamente os regimes de precipitação, evapotranspiração e temperatura. Esses fatores, em um contexto de mudanças climáticas e modificações no uso e ocupação da terra, fazem com que a bacia seja suscetível a eventos extremos como as secas, que afetam sua dinâmica ambiental e socioeconômica. Assim, este estudo teve como objetivo analisar eventos de seca na bacia e a influência de fatores antrópicos, associados as mudanças no uso e cobertura da terra, e fenômenos climáticos de grande escala, como o El Niño-Oscilação Sul (ENSO) e o Modo Anular Sul (SAM). Para isso, foram realizadas análises de uso e ocupação do solo e tendências das variáveis: precipitação, temperatura e evapotranspiração potencial (ETP) no período de 1961 a 2023. O Índice Padronizado de Precipitação e Evapotranspiração (SPEI) foi utilizado para caracterização dos eventos de seca e os coeficientes de correlação entre o SPEI e os modos de variabilidade climática (ENSO e SAM) foram obtidos. Os resultados apontaram que de 1990 a 2020 houve um crescimento das áreas urbanas, de mineração, agricultura e pastagem e de áreas ocupadas por plantações florestais. Em termos de tendências, toda a bacia do rio Doce apresentou aumento da temperatura de até 0,04 ℃ por ano, principalmente a partir da década de 90. A ETP também apresentou aumento em grande parte da bacia, a partir de 1985, de até 3 mm por ano, especialmente nas porções norte, centro-sul e noroeste. A precipitação apresentou tendência de redução de até 7,5 mm por ano na porção noroeste, entre as sub-bacias do rio Suaçuí e Santo Antônio desde 1983. Particularmente, a sub-bacia do rio Suaçuí apresentou alta frequência de secas severas e extremas, bem como tendências significativas nas 3 variáveis meteorológicas (temperatura, ETP e precipitação), sendo que episódios secos na porção centro-norte desta sub-bacia estão associados a fase positiva do SAM. Já as porções oeste das sub-bacias dos rios Piracicaba e Piranga são influenciadas pelo fenômeno ENSO. Por fim, este estudo propõe algumas recomendações ao comitê da bacia do rio Doce para mitigação dos efeitos das secas nas áreas mais vulneráveis a esses eventos.